Uma reportagem do UOL joga luz sobre uma relação que merece explicações ao eleitor piauiense. Segundo o levantamento, R$ 74 milhões em emendas de comissão apoiadas pelo senador Marcelo Castro foram destinados às obras da PI-391, em Uruçuí, executadas pela Construtora Jurema, pertencente ao próprio irmão do senador, João Costa e Castro. A empresa ficou com R$ 167 milhões em contratos nas três etapas da rodovia. E a história vai muito além dos R$ 74 milhões. O UOL aponta pelo menos R$ 124 milhões em recursos ligados à atuação de Marcelo Castro que pagam ou pagarão contratos da empresa do irmão. Mais impressionante: desde 2019, a Jurema assinou quase R$ 2 bilhões em contratos com o Governo do Piauí, enquanto a Ótima, construtora pertencente a outro irmão do senador, acumulou outros R$ 559 milhões. É dinheiro público demais circulando em torno de empresas da família de um dos políticos mais poderosos do Piauí. E há mais: quando Castro Neto, filho de Marcelo, comandava o DER, assinou pelo menos cinco contratos, somando R$ 130 milhões, entre o Estado e a Jurema. Em um deles aparecem, de lados opostos do contrato, o filho do senador assinando pelo DER e o irmão do senador assinando pela construtora. Senador Marcelo Castro destina R$ 74 milhões a obra de construtora do irmão.pdf Diante desses números, o eleitor tem todo o direito de perguntar: Marcelo Castro é senador do Piauí ou senador da família Castro? O mandato parlamentar existe para representar milhões de piauienses, não para produzir uma sucessão de coincidências envolvendo dinheiro público e empresas de parentes. Marcelo Castro nega qualquer favorecimento. Afirma que não escolhe as empresas vencedoras das licitações e ressalta que as emendas de comissão são coletivas. Senador Marcelo Castro destina R$ 74 milhões a obra de construtora do irmão.pdf Isso precisa constar. Mas não apaga os números — e são justamente os números que o eleitor deve julgar. Observação importante: eu não colocaria que “80% das emendas de oito anos de mandato foram para obras das construtoras da família”, porque essa informação não aparece nem é demonstrada pela reportagem enviada. Se você tiver a fonte desse percentual, incorporo e aí a manchete pode ficar ainda mais forte.
RAFAEL TERIA IMPLORADO A LULA POR PEDIDO DE VOTOS AO SENADO.
Um auxiliar do governo, dirigente de autarquia, revelou à coluna bastidores de um momento de forte tensão entre o governador Rafael Fonteles e o presidente Lula, antes da ida para a Arena Caru, em Teresina. Segundo o relato, Rafael teria chegado com os olhos marejados a praticamente implorar para que Lula pedisse votos aos dois candidatos ao Senado apoiados pelo seu grupo, Marcelo Castro e Júlio César. O mais revelador teria sido a avaliação do próprio governador sobre Ciro Nogueira. Rafael teria reconhecido a Lula que considera “quase impossível” derrotar Ciro na disputa por uma das vagas. Ainda assim, insistiu que o presidente não poderia subir ao palanque sem pedir votos para os dois nomes de sua chapa. “É quase impossível tomar a vaga de Ciro, mas você não pode deixar de pedir voto para os dois senadores. Isso vai me desmoralizar dentro do meu estado”, teria argumentado Rafael, conforme o relato do auxiliar à coluna. Para o governador, portanto, a questão já não seria apenas eleitoral. Seria uma demonstração de força e autoridade política. Mesmo admitindo a possibilidade de Marcelo Castro ou Júlio César perder a eleição, Rafael consideraria uma derrota pessoal Lula deixar o Piauí sem pedir votos publicamente para os dois. Segundo a fonte, Lula inicialmente resistiu, mas Rafael insistiu e conseguiu o gesto. Na Arena Caru, o presidente acabou pedindo votos para os candidatos ao Senado. Depois disso, Rafael mudou completamente o semblante e passou a vibrar no palanque. Nos bastidores, a revelação chama atenção por um detalhe: o próprio Rafael já trabalharia com a avaliação de que tirar Ciro Nogueira de uma das vagas do Senado é uma missão quase impossível.
VISITA DE LULA VAI PARAR NA JUSTIÇA: JOÃO PEREIRA ANUNCIA PROCESSO CONTRA SAMANTA CARVALHO.
A passagem do presidente Lula por Teresina promete deixar pelo menos uma consequência concreta: uma briga judicial entre dois vereadores da capital. Após as duras declarações da vereadora Samanta Carvalho contra a visita presidencial, o vereador João Pereira anunciou publicamente que pretende acioná-la na Justiça. Samanta criticou o fato de Lula chegar ao Piauí sem anunciar ou inaugurar uma grande obra nova do Governo Federal e, no calor das declarações, acabou envolvendo João Pereira, usando palavras de forte efeito contra o parlamentar. A crítica política de Samanta mira também a relação entre o governador Rafael Fonteles e Brasília. Apesar da proximidade política e dos elogios públicos entre Lula e Rafael, a oposição questiona quais grandes investimentos federais foram efetivamente conquistados pelo governador para o Piauí. Até a expansão e modernização do VLT de Teresina envolve pesado financiamento contratado pelo Estado, e não simplesmente recursos entregues pelo Governo Federal. João Pereira, por sua vez, considerou que Samanta ultrapassou o debate político e avisou que buscará reparação judicial. Assim, o estremecimento entre dois parlamentares da Câmara de Teresina deve terminar nos tribunais. Se Lula não deixou uma grande obra nova para inaugurar no Piauí, sua passagem pela capital deixou, pelo menos, um processo judicial a caminho entre dois vereadores.
FOTO DOS “50 MIL” LEVANTA SUSPEITA DE MANIPULAÇÃO E NÃO BATE COM IMAGENS AÉREAS DO EVENTO.
A imagem divulgada após o ato com o presidente Lula em Teresina virou o retrato escolhido para sustentar a versão de que 50 mil pessoas teriam comparecido ao evento. A fotografia, produzida por profissional de imprensa e amplamente repercutida por veículos alinhados ao Governo do Estado, apresenta uma Arena Carhoo completamente tomada, praticamente sem um palmo de espaço entre as pessoas. Só que outras imagens aéreas do mesmo evento mostram uma realidade diferente, com espaços vazios e uma concentração de público incompatível com a narrativa dos 50 mil. A imagem que viralizou também apresenta características visuais que levantam forte suspeita de edição pesada ou manipulação digital, inclusive com uso de inteligência artificial. Sem acesso ao arquivo original e aos metadados, porém, não é possível cravar tecnicamente qual ferramenta teria sido utilizada. Uma coisa é público; outra é número. Havia milhares de pessoas na Arena Carhoo, mas não há comprovação independente de que fossem 50 mil. Grande parte da mobilização veio de caravanas do interior, organizadas por prefeitos, deputados e lideranças de mais de uma centena de municípios. E aí está o dado político mais importante do ato: o teresinense não compareceu espontaneamente na proporção esperada para ver Lula. Apesar da enorme estrutura e da mobilização do interior, o evento ficou abaixo da expectativa. A fotografia pode até tentar preencher os espaços. Mas não consegue preencher a ausência do público espontâneo de Teresina.
OS ABENÇOADOS: EMPRESAS DO SOGRO E DO CHAMADO MELHOR AMIGO DO GOVERNADOR ESTÃO NO CENTRO DE R$ 2,7 BILHÕES EM CONTRATOS.
Os números são públicos e colocam uma cifra bilionária sob os holofotes. Levantamento realizado a partir dos registros públicos aponta que Solução, Poty e Soma, juntamente com consórcios dos quais participam, somam R$ 2,721 bilhões em 199 contratos com o Poder Executivo do Piauí desde 2023. No centro desse levantamento aparecem dois nomes muito próximos do governador Rafael Fonteles: Felipe de Santana Machado, o Felipinho, identificado por diferentes veículos locais como amigo próximo e até “um dos melhores amigos” do governador, e Francisco da Costa Araújo Filho, o Araujinho, sogro de Rafael Fonteles. Felipinho está ligado à Solução e à Poty. Somente essas duas construtoras assinaram R$ 1,647 bilhão em contratos, o equivalente a 60,5% dos R$ 2,721 bilhões apurados no levantamento. E há outro dado: levantamento feito sobre os empenhos estaduais apontou R$ 720,9 milhões pagos às duas empresas de Felipinho em aproximadamente três anos e meio, sendo R$ 554,2 milhões para a Solução e R$ 166,7 milhões para a Poty. Outros R$ 229,2 milhões foram identificados em pagamentos a dois consórcios que levam o nome de uma dessas empresas. Do outro lado está Araujinho, sogro do governador e ligado à Construtora Soma. Outro levantamento sobre a base de empenhos estaduais apontou R$ 240,9 milhões em 343 notas de empenho, considerando empresas, consórcios e registros em nome próprio associados ao empresário entre janeiro de 2023 e agosto de 2026. A concentração é especialmente forte em obras de infraestrutura. Dos R$ 2,721 bilhões em contratos identificados no levantamento das três construtoras e seus consórcios, R$ 2,647 bilhões — 97,3% — estão relacionados a pavimentação, incluindo asfalto, estradas vicinais e calçamento. E não se trata apenas de números que nunca chegaram aos órgãos de fiscalização. Em junho de 2026, o Tribunal de Contas do Estado determinou cautelarmente a suspensão de obras do Contrato nº 079/2024, da Secretaria de Transportes com a Construtora Solução, no valor de R$ 73,6 milhões, após fiscalização apontar, entre outros problemas, possível superfaturamento de aproximadamente R$ 2,45 milhões relacionado à metodologia de execução e pagamento de meio-fio. A empresa ligada ao sogro do governador também entrou no radar do Ministério Público do Piauí, que instaurou procedimento para apurar possíveis irregularidades em contratos do DER com a Construtora Soma. A existência dessas apurações, é importante registrar, não significa que favorecimento ou ilegalidade tenham sido comprovados. O que está documentado é a dimensão financeira: R$ 2,721 bilhões, 199 contratos e três construtoras, com empresas ligadas ao sogro e ao empresário apontado por veículos locais como um dos melhores amigos do governador ocupando posições relevantes nesse conjunto. São os “abençoados” dos contratos públicos. Diante de quase R$ 3 bilhões, a questão que merece resposta não pode ficar escondida no meio dos números: como se deu tamanha concentração de contratos e qual foi a concorrência efetiva em cada licitação? É dinheiro público. E cifras bilionárias exigem fiscalização, transparência e explicações públicas.
LULA CARREGADO: CHEGADA DO PRESIDENTE COINCIDE COM TARDE DE PANE E INCÊNDIOS EM TERESINA.
A passagem do presidente Lula pelo Piauí pode até não ter trazido o pacote de grandes obras e investimentos que muitos esperavam, mas, para os supersticiosos de plantão, a tarde desta quarta-feira (9) chegou “carregada”. Desde que Lula pisou em Teresina, uma sequência de episódios atípicos chamou atenção na capital. Semáforos apresentaram pane em vários pontos da cidade e incêndios de grandes proporções mobilizaram o Corpo de Bombeiros. Um dos casos que mais assustou ocorreu nos quiosques do Riverside Shopping, onde as chamas e a fumaça chamaram atenção por horas. Outro incêndio foi registrado nas proximidades da Procuradoria-Geral do Estado. E, para completar a tarde de sustos, um incêndio de grandes proporções também atingiu uma casa de shows na Avenida Dom Severino, no coração da Zona Leste de Teresina. Os episódios não tiveram qualquer relação conhecida entre si, muito menos com a presença presidencial. Foram ocorrências distintas e coincidentes. Mas, no meio político, os opositores não perderam a oportunidade de ironizar. Diante de tanta coisa acontecendo justamente no dia da chegada de Lula, uma pergunta começou a circular entre os mais supersticiosos: “Ou é muito pecado ou é muita coincidência?” Para os supersticiosos de plantão, foi uma tarde literalmente “carregada” em Teresina.
STF VIVE DIA DE DECISÕES E CONTRADECISÕES E EXPÕE CRISE INTERNA.
O Supremo Tribunal Federal viveu nesta quarta-feira (9) um dos dias mais confusos de sua história recente. Ministros derrubaram decisões de ministros, a Presidência precisou intervir e, ao final do dia, o próprio presidente Edson Fachin reconheceu a gravidade do quadro, falando em risco de “grave lesão à ordem pública e à integridade do Supremo”. A confusão começou com o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, determinado pelo ministro André Mendonça. Nesta quarta, Flávio Dino entrou em cena e decidiu reintegrar Andrei, contrariando a decisão do colega. Horas depois veio uma terceira decisão. Fachin suspendeu tanto a determinação de Mendonça quanto a de Dino. Resultado: as duas decisões deixaram de produzir efeitos e Andrei Rodrigues, indicado pelo presidente Lula para comandar a PF, permanece provisoriamente no cargo. Mas Fachin foi além. O presidente do Supremo retirou Alexandre de Moraes da relatoria do polêmico inquérito das fake news, aberto em 2019 e comandado por Moraes há mais de sete anos. A investigação passa agora para a Presidência da Corte, embora Fachin tenha preservado as decisões já tomadas anteriormente. Fachin determinou ainda que procedimentos envolvendo possíveis investigações contra ministros do próprio STF sejam submetidos inicialmente à Presidência da Corte e convocou sessão extraordinária do plenário para o próximo dia 15. Foi um dia que expôs publicamente uma crise que já não cabe mais nos corredores do Supremo. Mendonça decidiu. Dino desfez. Fachin suspendeu os dois. Moraes perdeu uma das relatorias mais poderosas e controversas do país. E o presidente do STF precisou centralizar os processos para tentar colocar ordem na própria Corte. Independentemente de quem tenha razão juridicamente, a sucessão de decisões conflitantes produz uma imagem preocupante para a mais alta Corte do país. Quando ministros do Supremo passam a derrubar decisões uns dos outros e o presidente precisa entrar em campo para conter o conflito, quem termina pagando a conta é a credibilidade do próprio STF. Nesta quarta-feira, mais do que uma crise jurídica, Brasília assistiu a uma demonstração pública da divisão existente dentro do Supremo.
Silas Freire