Levantamento de empenhos aponta aportes à Investe Piauí e à ETIPI com recursos classificados como operações de crédito. Mais de R$ 305 milhões já teriam sido pagos, mas o destino final do dinheiro exige explicações.
O governador Rafael Fonteles costuma defender os empréstimos feitos pelo Piauí com uma resposta direta: o dinheiro é para obras, sobretudo estradas e asfalto. Um levantamento de 19 detalhamentos de empenho do próprio sistema financeiro do Estado, o SIAFE-PI, mostra que essa não é toda a história. Em 2026, R$ 320,2 milhões de recursos classificados como provenientes de operações de crédito foram destinados a aportes de capital em duas estatais.
A maior parcela, cerca de R$ 267 milhões, aparece destinada à Investe Piauí. Outros R$ 53 milhões foram destinados à Empresa de Tecnologia da Informação do Piauí, a ETIPI. Segundo o levantamento, atualizado em 25 de setembro, mais de R$ 305 milhões do total já haviam sido pagos. Os valores informados para cada empresa são aproximados e, por isso, não reproduzem os centavos do total apurado.
A Investe Piauí atua na atração de investimentos e tem entre suas atribuições projetos ligados à infraestrutura logística. A ETIPI responde por atividades de tecnologia e serviços digitais do governo. Os aportes registrados, porém, são para a capitalização dessas empresas: os empenhos não identificam uma estrada, um trecho asfaltado ou uma obra rodoviária correspondente aos R$ 320,2 milhões. Isso não prova que o dinheiro tenha sido gasto irregularmente. Mostra que o governo deve explicar uma destinação diferente daquela que destaca ao falar dos empréstimos. (pi.gov.br, etipi.pi.gov.br)
O ponto que merece maior atenção é o caminho do dinheiro depois do aporte. O empenho e o pagamento pelo Estado permitem identificar o valor destinado a cada estatal, mas não detalham, por si, todas as despesas feitas posteriormente pela empresa. Para que a população acompanhe o uso dos recursos, são necessários os planos de aplicação, os demonstrativos financeiros, os contratos e os pagamentos vinculados a cada projeto financiado.
Também falta esclarecer a conta da dívida. De quais contratos de empréstimo saíram esses recursos? Quais juros e prazos o Piauí assumiu? O governo precisa demonstrar se as condições dessas operações permitem os aportes realizados, quais objetivos foram aprovados para o dinheiro e que resultados já foram entregues pela Investe Piauí e pela ETIPI.
A cobrança deve alcançar toda a gestão. Desde 2023, quanto dinheiro de operações de crédito foi colocado no capital dessas duas empresas? Quanto desse montante se transformou em investimentos identificáveis e quanto ainda permanece disponível? São números que o governo pode apresentar sem dificuldade se mantém o controle da aplicação dos recursos que tomou emprestados em nome dos piauienses.
Não se trata de negar que tecnologia ou atração de investimentos possam trazer benefícios ao Estado. A questão é de prioridade, custo e prestação de contas. Quando o governador pede à população que aceite uma dívida em nome das obras, precisa mostrar onde cada parcela do empréstimo foi aplicada. Os registros de 2026 colocam R$ 320,2 milhões nessa pergunta. A resposta cabe ao Palácio de Karnak.
Base do levantamento informado ao Portal Encarando: 19 detalhamentos de empenho do SIAFE-PI, exercício de 2026, Fonte 54 — Recursos de Operações de Crédito, Órgão 24 — Encargos Gerais do Estado. Atualização: 25/09/2026.