A disputa interna dos partidos da base governista por espaço na chapa proporcional e por candidaturas competitivas à Câmara Federal pode acabar produzindo mais um efeito colateral na corrida ao Senado. E, mais uma vez, quem pode sentir o impacto é o deputado federal Júlio César Lima. A presidente estadual do Republicanos, Alessya Xavier, anunciou nesta quarta-feira que o partido deverá se reunir até o final da próxima semana com a direção nacional para discutir o posicionamento da sigla na eleição para o Senado Federal. A declaração, no entanto, deixou mais dúvidas do que respostas. Ninguém entendeu, ao certo, qual caminho o Republicanos pretende seguir: se lançará candidatura própria, se fechará questão em torno dos dois nomes da chapa majoritária ou se buscará uma alternativa fora da composição governista. Alexia evitou criar expectativas e limitou-se a informar que o encontro com dirigentes nacionais e estaduais servirá para dissipar todas as dúvidas sobre o tema. Até lá, o cenário permanece aberto. Nos bastidores, a indefinição é vista como mais um problema que pode acabar sobrando para Júlio César Lima. Integrante da chapa majoritária alinhada ao Palácio de Karnak, o deputado continua dependendo da consolidação dos apoios partidários para fortalecer seu projeto ao Senado. E cada nova incerteza entre os aliados amplia o desafio de manter unificada uma base que já convive com disputas por espaços e interesses distintos.
Marcelo Noleto, o secretário “boca quente” que coleciona problemas para o governo.
O secretário de Comunicação do Governo do Piauí, Marcelo Noleto, voltou a colocar a gestão estadual em situação desconfortável. Conhecido nos bastidores políticos como o secretário “boca quente”, por frequentemente criar crises desnecessárias para o próprio governo, Noleto agora acumula uma condenação da Justiça Eleitoral por publicações ofensivas contra o senador Ciro Nogueira. A decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí reconheceu que as manifestações do secretário ultrapassaram os limites da crítica política, configurando propaganda eleitoral antecipada negativa e atingindo a honra e a imagem do parlamentar. Segundo o entendimento da Corte, houve nítida intenção de degradar a imagem do então pré-candidato, com acusações e declarações consideradas incompatíveis com o debate democrático. O episódio reforça uma avaliação que cresce nos meios políticos: em vez de atuar como ponte entre o governo e a sociedade, Marcelo Noleto tem se transformado em uma fonte permanente de desgaste para a administração estadual. Ao assumir o papel de militante agressivo nas redes sociais, acaba expondo o próprio governo a derrotas políticas e judiciais. A condenação não atinge apenas a figura do secretário. Ela lança questionamentos sobre a estratégia de comunicação adotada pelo Palácio de Karnak e sobre os limites que seus auxiliares estão dispostos a respeitar no embate político. Quando a Justiça condena um secretário de Estado por ofensas e ataques pessoais, o prejuízo não é apenas individual: respinga diretamente na imagem da gestão que ele representa. Mais uma vez, Marcelo Noleto vira notícia não pelos resultados da comunicação governamental, mas pelos problemas que cria para o governo que deveria defender. Em política, há auxiliares que agregam. Outros, acabam se tornando um passivo. A decisão do TRE-PI coloca o secretário, cada vez mais, na segunda categoria.
Temístocles quebra o gelo e recebe Rafael em Esperantina.
Uma cena rara voltou a acontecer em Esperantina. O vice-governador Temístocles Filho apareceu à vontade ao lado do governador Rafael Fonteles durante agenda administrativa no município, num gesto que muitos interpretaram como o fim do desconforto político surgido após sua exclusão da chapa majoritária para a disputa da reeleição. Rafael desembarcou na cidade cercado do ritual que tem marcado suas visitas pelo interior: banda de música, microfone à disposição e até sanfona para reforçar a imagem de popularidade que o Palácio de Karnak busca construir. A recepção ficou por conta da prefeita Ivonária Sampaio, esposa de Temístocles Filho e pré-candidata à Assembleia Legislativa. Juntos, eles visitaram o Teatro Municipal de Esperantina, que passa por uma ampla reforma financiada pelo Governo do Estado. O espaço cultural tem história. Construído há mais de três décadas durante o governo Alberto Silva, o teatro permaneceu por muitos anos sem funcionamento, acumulando períodos de abandono e chegando a ficar fechado por cerca de duas décadas. Agora, recebe investimentos estaduais para ser reaberto e voltar a fomentar a atividade cultural na região dos Cocais. Mas o que mais chamou atenção nos bastidores não foi a obra. Foi a sintonia demonstrada entre Temístocles e Rafael. Sem sinais de constrangimento ou distância, os dois conversaram, sorriram e dividiram o palco da agenda oficial. Para observadores da política piauiense, ficou a impressão de que o vice-governador finalmente assimilou a condição de não integrar mais a chapa majoritária e que o antigo calundum entre os dois líderes ficou para trás.
MDB tenta aparar arestas, mas estratégia pode custar votos a Marcelo Castro,
A ofensiva do MDB para reduzir resistências à candidatura de Júlio César ao Senado tem um efeito colateral que não passa despercebido nos bastidores. Ao trabalhar para afastar lideranças da base governista de uma eventual aproximação com Ciro Nogueira, o partido pode acabar criando um ambiente de desconforto justamente entre prefeitos e lideranças municipais que mantêm compromisso político com o senador progressista. O cálculo é simples. Muitos prefeitos que apoiam Rafael Fonteles também preservam relações históricas com Ciro Nogueira e enxergam na eleição para o Senado uma disputa diferente da sucessão estadual. Se perceberem pressão excessiva para abandonar um aliado de longa data, a reação pode surgir nas urnas. Nesse cenário, a conta pode chegar justamente para Marcelo Castro, presidente estadual do MDB e candidato à reeleição. Em vez de enfraquecer apenas a candidatura de Ciro, a movimentação pode estimular prefeitos e lideranças municipais a reavaliar seu engajamento em favor de Marcelo, reduzindo o entusiasmo ou até migrando parte dos votos para outras composições. Como ensina a velha sabedoria do interior, quando se mexe demais na cerca para segurar o gado de um lado, corre-se o risco de abrir passagem do outro. E é exatamente esse o desafio que o MDB terá de administrar nos próximos meses. A busca por unidade em torno de Júlio César pode acabar produzindo desgastes para Marcelo Castro em redutos onde a influência política de Ciro Nogueira continua viva e respeitada.
Batista Teles faz mágica estatística em Parnaíba.
O estatístico Batista Teles, do Instituto Amostragem, parece ter se superado na mais recente pesquisa divulgada para a TV Costa Norte, emissora que hoje mantém forte vínculo comercial com a Prefeitura de Parnaíba e que encomendou o levantamento. O resultado chamou atenção por dois motivos. Primeiro, porque entregou à deputada Gracinha Mão Santa uma liderança esmagadora nas intenções de voto para deputado estadual e até para deputado federal, mesmo sem ela disputar uma dessas vagas. Um desempenho eleitoral que a própria deputada passou o dia comemorando e divulgando. Mas o verdadeiro espetáculo veio em seguida. Na mesma pesquisa, Batista Teles encontrou uma aprovação de 74% para a gestão do prefeito Francisco Emanuel. Um número que surpreendeu observadores políticos, adversários, aliados e boa parte da população que acompanha diariamente a crise política instalada em Parnaíba. A consequência da jogada foi engenhosa. Como contestar a credibilidade da pesquisa se ela mesma entrega a Gracinha os números que interessam ao seu grupo político? Ao celebrar a liderança eleitoral apontada pelo levantamento, torna-se difícil atacar os índices favoráveis ao prefeito produzidos pelo mesmo instituto e pela mesma metodologia. No fim das contas, Batista Teles conseguiu uma proeza: produziu uma pesquisa que agrada a todos os lados do grupo governista local e, ao mesmo tempo, reforça a tese das elevadas aprovações que o Instituto Amostragem costuma atribuir às gestões ligadas ao governador Rafael Fonteles. Se os números refletem a realidade ou não, o eleitor é quem julgará adiante. Mas uma coisa é certa: Batista Teles mostrou mais uma vez que entende não apenas de estatística, mas também dos efeitos políticos que uma pesquisa pode produzir. E produziu.
Prefeita Maninha veta criação do censo municipal do autismo.
É difícil compreender a decisão da prefeita Maninha de vetar o projeto que criava o Censo Qualificado da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Luís Correia. A proposta, aprovada pela Câmara Municipal e de autoria do vereador Wilton Veras, tinha um objetivo simples e necessário: conhecer a realidade das famílias que convivem com o autismo para que o poder público possa planejar melhor suas ações. Afinal, como elaborar políticas públicas eficientes sem saber quantas pessoas autistas existem no município, onde estão e quais são suas principais necessidades? O censo não criava despesas extravagantes nem privilégios. Criava informação. E informação é o primeiro passo para qualquer gestão que pretenda agir com responsabilidade. Num momento em que a sociedade avança na luta por inclusão, diagnóstico precoce, atendimento especializado e respeito às pessoas com TEA, causa estranheza que a Prefeitura caminhe na direção oposta. O veto passa a impressão de que conhecer a realidade dessas famílias não é prioridade. As mães atípicas, educadores e defensores da causa autista têm razão ao questionar a decisão. Sem dados, o planejamento fica no escuro. Sem planejamento, os investimentos podem não chegar onde são mais necessários. Agora a palavra volta para a Câmara Municipal. Os vereadores terão a oportunidade de decidir se mantêm ou derrubam o veto. O que a população espera é uma explicação convincente para uma decisão que, até aqui, parece estar na contramão das necessidades de quem mais precisa de atenção e políticas públicas efetivas.
Master: quando a crise bate à porta do PT.
Durante meses, o PT e o governo Lula exploraram politicamente o escândalo envolvendo o Banco Master. O episódio foi usado para atingir adversários, principalmente lideranças da direita e do Centrão. Entraram na roda o senador Ciro Nogueira, o presidente da Câmara Hugo Motta e até Flávio Bolsonaro, citado em discussões relacionadas a pedido de patrocínio para um projeto cinematográfico ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A narrativa era simples: o problema estava do outro lado. Mas a política tem dessas coisas. A poeira que parecia distante agora chegou com força ao coração do próprio PT. As investigações que alcançam o senador Jaques Wagner, uma das figuras mais influentes do partido e homem de absoluta confiança do presidente Lula, colocam o governo diante de um constrangimento que não pode mais ser tratado como assunto alheio. Relatórios da Polícia Federal apontam suspeitas de vantagens indevidas relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Wagner nega qualquer irregularidade. O problema político, porém, já está instalado. Quando o caso atingia adversários, havia discurso. Agora, quando alcança um dos principais líderes petistas, surge o teste da coerência. O mesmo rigor exigido dos outros será aplicado aos aliados? Nos bastidores de Brasília, cresce a pressão para que Lula tome uma decisão. Jaques Wagner já avisou que não pretende deixar a liderança do governo por vontade própria. Só sairia se fosse destituído. Lula resiste. Trata-se de um dos seus mais antigos e leais companheiros de caminhada política. Mas a avaliação de parte dos aliados é que o governo corre o risco de ficar prisioneiro do próprio discurso. Afinal, quem transformou o caso Master em bandeira política agora precisa explicar por que adota cautela quando o foco da investigação se aproxima do Palácio do Planalto. O que antes era tratado como problema dos outros virou problema de casa. E na política, quando a régua muda conforme o investigado, a oposição encontra o argumento perfeito para dizer que, no fim das contas, todos estavam no mesmo barco. A situação embolou. E desta vez não será possível empurrar o escândalo para o quintal do vizinho.
Silas Freire