Construtora Caxé vira símbolo do escândalo da falta d’água no Piauí: obra de abastecimento aparece paralisada

Uma obra contratada pelo Governo do Piauí justamente para levar água a comunidades rurais de Pimenteiras aparece atualmente como paralisada no acompanhamento de obras baseado nos registros do Tribunal de Contas do Estado. O contrato, firmado pelo Instituto de Desenvolvimento do Piauí (Idepi) com a Construtora Caxé Ltda., é de R$ 624.767,36 e prevê a implantação de um sistema de abastecimento nas localidades Malhadinha e Cacimba dos Cavalos.

A contratação foi homologada em outubro de 2024. O objeto era claro: executar os serviços de implantação do Sistema de Abastecimento de Água (SAA) na zona rural de Pimenteiras. A empresa vencedora foi a Construtora Caxé, de Gustavo Macedo Costa. 

O caso chama ainda mais atenção porque, em julho de 2025, o próprio Governo do Estado divulgou que a obra já havia alcançado 80% de execução, com investimento de aproximadamente R$ 667 mil, segundo a publicação oficial. Na ocasião, o Idepi afirmou que o sistema beneficiaria famílias das duas comunidades e contemplava estruturas para garantir o acesso à água potável. 

Agora, no acompanhamento de obras, o empreendimento aparece como paralisado. A situação levanta uma questão básica: se a obra chegou a 80% de execução, o que aconteceu depois?

O contrato previa a implantação do sistema para atender justamente comunidades que enfrentam dificuldades históricas de abastecimento. A vigência chegou a ser prorrogada até dezembro de 2026. Mas a extensão do prazo, por si só, não significa que a água tenha chegado às torneiras.

MILHÕES EM CONTRATOS COM A AGESPISA

A Caxé também aparece em contratos milionários firmados com a Agespisa. Um dos principais é o Contrato nº 84/2023, destinado a serviços continuados de manutenção preditiva, preventiva e corretiva, monitoramento e operação da estrutura da companhia, incluindo mão de obra, materiais, máquinas, equipamentos, peças e componentes. 

O contrato começou na casa dos R$ 6,71 milhões e, após aditivo, chegou a aproximadamente R$ 8,39 milhões. Levantamento anterior do Encarando identificou quatro contratos da Caxé com a Agespisa que, considerando os aditivos localizados, somam aproximadamente R$ 12,27 milhões. 

O valor dos contratos, por si só, não indica irregularidade. O ponto que precisa ser esclarecido é outro: quanto foi efetivamente pago, quais serviços foram executados, onde foram realizados e qual foi o resultado entregue à população.

Isso ganha peso diante da atual crise de abastecimento enfrentada em diferentes regiões do Piauí.

O QUE FOI PAGO E O QUE CHEGOU ÀS TORNEIRAS?

No caso de Pimenteiras, o Idepi precisa explicar por que uma obra que o próprio governo informou estar 80% concluída passou a aparecer como paralisada, qual percentual foi efetivamente executado, quanto já foi pago à empresa e qual é a previsão real para conclusão e funcionamento do sistema.

A Construtora Caxé também precisa apresentar sua versão sobre a paralisação e informar em que estágio estão os serviços contratados.

Já em relação aos contratos da Agespisa, a população tem o direito de saber onde os recursos foram aplicados, quais serviços foram medidos e atestados, quem fiscalizou a execução e quais estruturas permaneceram efetivamente funcionando.

O problema não é simplesmente a existência de contratos ou aditivos. É a distância entre o dinheiro previsto no papel e a água que precisa chegar à casa do piauiense.

Em um estado que enfrenta uma crise de abastecimento, uma obra destinada a levar água e que aparece paralisada deixa de ser apenas um número em uma planilha. Passa a representar uma cobrança objetiva: quanto foi pago, o que foi feito e quando a água vai chegar?

O Governo do Estado, o Idepi, a Agespisa e a empresa contratada precisam apresentar essas respostas.